Segundo andar

Foram tão felizes que não tiraram fotos. Passaram a noite no velho bar mexicano de tantas outras noites, compartilhando da alegria de poder beber numa quarta-feira. Sentaram-se desta vez na sacada do segundo andar para poder olhar de cima todas aquelas pobres almas sofridas de amor, o que os fazia pensar nos anos que se passaram. Estes, por sua vez, faziam pensar nos anos que virão a passar.

Na mesa do canto esquerdo, um homem exaltado gesticulava e falava com tanta energia que sua companheira se encolheu sem ter como reagir. Outros pareciam não ver. Haviam pedido batatas e cerveja, o que provocava a constatação de que enquanto brigavam o que era quente esfriava e o que estava gelado esquentava. Num virar de olhos, não estavam mais lá. Não voltamos a vê-los mais. Como teria acabado aquela noite para aqueles pobres amantes da mesa do canto? Que fim teriam tido aqueles rostos?

Uma pequena confraternização entre um grupo de jovens senhosas dava a rara impressão de que as pessoas ao redor eram ainda mais tristes: homens sós, casais em silêncio, mesas vazias e TVs mudas. Até mesmo os garçons que de preto alimentavam o luto etílico destilavam olhares sobre o menino que brincava em cima da mesa para disfarçar sua apreensão diante do novo namorado de sua jovem mãe. A brincadeira era um mundo à parte com peças triangulares vermelhas, que criava uma outra realidade sobre a mesa.

Do segundo andar, estranhavam de onde vinha tanta gente só. Encaravam a injusta e doce realidade de serem náufragos que se abraçam para juntos não perecerem ao afundamento. Dali boiavam a ver os outros como uma realidade distante e presente: sem dúvida eram felizes. 

Do bar saíram com os braços dados. Passos cambaleantes que se entrecruzaram até a casa na rua principal. Aos beijos na porta, tocaram a campainha. Foram tão felizes que não tiraram fotos.

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As Férias de Lorival

Desceu a rua às carreiras em cima de uma velha bicicleta como se fugisse da morte ou corresse atrás do bonde. A testa calva já molhada de suor brilhava ao Sol das 15h. A camisa social umedecida e desabotoada sacudiam ao vento e Lorival se lembrou de quando era garoto no interior. Não havia a pressa.

Hoje, aos 78 anos, era obrigado a trabalhar como porteiro em um dos novos condomínios do bairro novo. Passara a vida trabalhando para ajudar os pais, depois para ajudar a sustentar, juntamente da mulher, os 4 filhos e 1 neta. Hoje trabalha para sustentar a si mesmo: seus remédios e seus vícios. 

Dos 14 aos 78 trabalhou sem férias. Sempre que entrava de férias em um emprego era obrigado a arranjar um outro emprego para completar a renda e dar de comer às crianças. De tudo fazia um pouco e aos 60 já tinha o sobrepeso de 20kgs e aparência nada saudável de um senhor de 80 anos.

A morte da mulher anos atrás obrigou Lorival a aceitar o trabalho de porteiro, já que a renda como lavadeira e doméstica de sua mulher não existia mais para sacrar os seus vícios e alimentar as bocas do lar. Embora também tivesse as mãos delicadas de sua companheira, não as usava para costurar para fora, mas para o carteado. Gastava noites infindas nos bares e endividava-se ao tentar acabar com suas dívidas em apostas mirabolantes que quase sempre perdia, o que retro-alimentava sua vontade insaciável para afogar seus desesperos em copos sem fim e comilanças suicidas.

Encarregado de levar sua neta para a escola todos os dias na hora do almoço para que ainda pudesse salvar o futuro de sua estirpe, preocupou-se ao descobrir que seria necessário conversar com a professora da pobre criança, pois a menina tinha dificuldades de concentração e passava as aulas dispersa e ao mesmo tempo imersa em seus desenhos. 

O susto de mais um possibilíssimo insucesso de sua estirpe somado ao passar rápido dos ponteiros do relógio alertou-o de que precisaria sair às pressas e mal teve tempo de comer seu prato de almoço. Comeu o prato em 2 minutos e subiu em cima de sua bicicleta com a determinação de quem tem corre atrás de um pobre e valioso salário. Em 14 minutos já estava descendo as ladeiras rumo ao bairro novo. Enfim, por volta das 15h, quando sua testa banhada em suor escorria sobre seus olhos, um ônibus atravessou o cruzamento para dar-lhe férias. 

Jaú e as Ondas

Ela foi até o espelho e se encarou por longos 3 minutos. Os olhos semiabertos contemplando o efeito dos anos sobre aquele rosto que outrora foi um dos mais belos de São Francisco. Os cabelos agora brancos não deixam esconder mais o efeito indelével dos anos. O tempo escorre entre seus dedos como no tempo em que corria pela praia vazia enquanto seu pai puxava de volta o barco que a maré havia carregado para longe durante a noite. Como sempre, o velho pescador havia bebido demais e esquecera de amarrar o barco naquelas pedras que até hoje sobrevivem às ondas.

Ela tinha 8 anos quando Jaú morreu, naquele verão de 1937. Caminhava ao seu lado e fazia o Sol parecer menos déspota ao poder dividir com ela aquele calor que mais parecia um castigo. Jaú correu para a água e olhou para trás como quem dizia: Vem, Olívia! Entrou na água e cantarolava alguma música cômica que ouvira no rádio na noite anterior. A onda batia forte e ficou com medo por ele: Jaú era forte mas não sabia nadar.

Embora fossem filhos de pescadores, não sabiam nadar. A onda bateu forte novamente e Jaú perdeu o equilíbrio. Caiu para a frente e reapareceu 4 horas depois a uma distância de 2 km da praia de São Francisco. Correram para recolher o corpo e, para surpresa, o verão de 1937 ficou para sempre impresso na felicidade de Jaú: morreu sorrindo e com os olhos perdidos olhando para frente. 

O horizonte.

Missa Para Genet

2015-04-25 00.41.13 (1)

Depois de dois meses sem postar nada aqui no blog, fui quase intimado a voltar a postar devido ao grande número de desenhos que tenho produzido. E por produzir tanto, minha namorada (Victória) e minha grande amiga e colega de academia (Mayra), me motivaram a voltar para a escrita. É a elas a quem dedico minha volta. Lá vai!

Para o post dessa semana, escolhi sentar dentro de uma Igreja Católica (Porciúncula de Sant’ana). Neste momento em que vos escrevo, está acontecendo uma missa. Você que me lê deve se perguntar agora: Por que escolheu uma Igreja?

Desde pequeno, fui criado em uma família “dita” católica. Avós católicos, mãe espírita-umbandista, primo evangélico radical, tia messiânica, outra tia espírita-cardecista-qualquer-coisa-que-salve-do-inferno. E eu? A ovelha negra… O sem religião.

E vou confessar. É difícil não ser algo. Estudei o final do ensino fundamental e todo ensino médio em escola católica e fingia, todo ano, escolher uma nova religião diferente para poder “ser aceito” no meio. Os profs de religião colocavam uma pressão absurda e eu sempre dizia que era budista, hindu – sim, absurda a minha cara-de-pau, né? – judeu ortodoxo – hã? – ,católico ortodoxo russo – ok, passei dos limites… Desconfio de que eles sabiam que eu não estava mentindo desde o início, mas parece que havia a cumplicidade da tentativa de escolher algo para preencher essa necessidade moral de ter uma religião. Era entendido que eu precisava ser classificado.

Voltando um pouco no tempo. Lembro ainda na 5° série. Eu estava começando a ler muito, enquanto os outros meninos só queriam saber de futebol. Eu lia na época o livro O Inimigo de Deus – segundo livro da trilogia Rei Arthur – e a prof de religião ficou sabendo que eu andava lendo… Mas ela soube apenas do nome do livro (haha). E quando tentei explicar, falei do primeiro livro da trilogia , O Rei do Inverno. E não é que ela entendeu que o “v” fosse um “f”!? (hahahahahahaha) Fui imediatamente para a coordenação pedagógica da escola. Era difícil ser criança nesse meio religioso… Ainda mais entre tantas religiões de sofrimento. Lembro que quando eu tinha uns 4 anos e fui com meus pais na procissão/encenação da Missa da Ressurreição de Cristo. No meio da Igreja, vinha um homem todo ensanguentado dizendo sobre carne e sangue. Trauma na hora! Chorei pra caramba!

*Aqui na Igreja, estão me olhando pois sou disparadamente o mais jovem. Rezei até um Pai Nosso aqui para provar que estou aqui de boa.

**Uma senhora acabou de apertar minha mão dizendo “Paz de Cristo”, tomei um susto, tamanha a minha concentração!

Dando um breve salto no tempo. Depois de entrar para a graduação em Ciências Sociais, me aprofundei por conta própria no existencialismo de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Jean Genet… Foi então que saí da “caixinha” religiosa de vez. Minha mãe até hoje ainda me prepara banhos de “limpeza” espiritual. Eu tomo, né… Vai que funciona! (rs) E também escuto diariamente o programa do Padre Marcelo Rossi com minha avó no rádio que meu primo evangélico empresta para ela ouvir.

Outro dia mesmo, levei minha vó para passear um pouco e fomos à Igreja (esta mesma que eu escrevo agora). Ela pegou uns papéis com pedidos de missa para encomendar a alma dos parentes falecidos todos que tiveram na família. Acabou por me dar um papel. Não soube o que escrever. Aí veio aquele estalo! Vou mandar rezar uma missa para Sartre e Simone, afinal, os considero meus padrinhos intelectuais e da vida mesmo. Mandei rezar, mesmo sendo ateus… Que Sartre me perdoe!

Hoje, para não ficar muito atrás ou em dívida, mandei rezar uma missa para Jean Genet. Ainda mais depois de começar a ler “Diário de um Ladrão”, percebi que se alguém precisava de uma missa, esse alguém era “tio Genet”! (rs)

Até a próxima!

Aqui não é a Suécia!

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E não é que eu fiquei bom da gripe! Dona Olívia tratou de me mandar comer frango e chupar laranja. E foram muitas, viu. Laranjas, bananas, maçãs, coco… Meu estômago ficou uma feira só, um tanto carmínico. Após sinais de melhora da gripe, fui eleito em votação extraordinária – na qual só minha avó votou – para ir marcar um exame para ela em um laboratório em um edifício comercial na rua Lopes Trovão. É aí que nasceu o título do post dessa semana.

Estava quase no edifício comercial quando tive que esperar o sinal para  atravessar a rua. Ouvi uns gritos exaltados de alguns taxistas sendo direcionados à uma senhora distinta – a qual eu vou me permitir chamar de perua – atravessava entre os carros. Sim, ela atravessava acreditando que estava certa e ainda disse do alto do seu salto 15 em bom tom: Estou na faixa, apressados! Imediatamente, todos que esperavam para atravessar a faixa única da rua Lopes Trovão, se puseram a rir da perua, que ainda xingava os motoristas. Uma senhora que esperava ao meu lado o sinal  de pedestres abrir, logo virou-se para mim e disse: De onde já se viu!? Aqui não é a Suécia!

Essa frase ficou reverberando dentro da minha cabeça desde segunda-feira até hoje, sexta-feira. Fui anteontem ao bar com minha namorada e contei a situação da perua atravessando perigosamente a rua. De imediato, comecei a anotar em tópicos algumas diferenças entre a cultura sueca e a brasileira. Entre umas e outras ficou decidido: precisávamos pesquisar mais!

Cheguei em casa e logo procurei sobre a fundação da Suécia e como a conhecemos hoje como um símbolo de qualidade de vida. Incrivelmente, quando coloquei no google as palavras “Suécia Brasil”, logo veio o seguinte resultado: Copa de 1958.

Já ouvi na rua alguns velhos – aqueles bem velhos mesmo, que resmungam nos botecos, pelas esquinas – dizendo que a Suécia decidiu investir no desenvolvimento nacional após ver, em 1958, que não tinham vocação esportiva. Eu ri. Então, após o 7 x 1, o Brasil vai tomar vergonha na cara?

Passei toda a quinta-feira lendo sobre a história sócio-política da Suécia e encontrei algumas coisas bem interessantes – que já haviam sido discutidas no bar na quarta-feira. Desde a queda da cultura viking no norte da Europa, a Suécia era um lugar que nem todos queriam ir. Muito frio. Muito longe do centro de decisões político-econômicas ocidentais. Muito perto do Protestantismo.

Comparando com a formação social brasileira, os vikings eram como se fossem os índios suecos. Estou rindo sonoramente dessa comparação tosca, mas é mais ou menos isso, para ambientar os leigos: Índios loiros e barbados.

Em 1527, a Reforma Protestante havia chegado na Suécia. Enquanto isso, no Brasil, jesuítas tentavam salvar as almas dos índios que aqui se encontravam. O território sueco dá pouco mais do que dez vezes o tamanho do Estado do rio de Janeiro, e sua população se concentra no sul do país, com sua maioria concentrada na região metropolitana de Estocolmo – a qual foi dedicado o desenho do post de hoje.

Fui investigar sobre a política sueca e encontrei o seguinte lema: transparência, educação e igualdade.

Li uma matéria da repórter Claudia Wallin sobre a diferença  entre políticos brasileiros e suecos e me surpreendi com o fato de, na Suécia, ainda na Idade Média, já haver a participação camponesa em assembleias políticas ao lado do clero e da nobreza. A noção de igualdade social foi levado à política, o que faz com que políticos suecos sejam representantes do povo sueco e não têm nenhuma regalia.

Ser político na Suécia é andar de ônibus e ser tratado por “você”, diferentemente do patrimonialismo político brasileiro que remonta o cenário das sesmarias na virada do século XVI para o XVII. Enquanto a Suécia é um país monárquico que vive uma democracia, o Brasil é uma suposta democracia na qual a maioria de sua população vive como súditos medievais.

O investimento em educação na Suécia é altíssimo. Professores primários ganham 2/3 do salário de um deputado. A educação é gratuita até a universidade e o voto não é obrigatório e mesmo assim, entre 80% e 90% da população comparece às urnas. De fato, aqui não é a Suécia.

Voltando à perua correndo entre os carros, me lembrei de pesquisar sobre o trânsito sueco. E não é que lá morreram menos de 300 pessoas em acidentes de trânsito no último ano! Fascinante! Na Suécia, uma lei de 1997, intitulada de “Vision Zero”, previa a redução dos acidentes no país. Enquanto no Brasil, morrem no trânsito 25/100.000, os suecos tem a taxa de 3/100.000. A prioridade no trânsito sueco são os pedestres. O planejamento urbano na Suécia foi fundamental para reduzir o número de acidentes.

Foi desenvolvido uma espécie de área de ultrapassagem nas rodovias de pista simples e de mão-dupla, na qual a cada ‘x’ quilômetros, o motorista tem uma pista a mais para poder fazer uma ultrapassagem segura. E nos últimos dez anos, foram construídos 1.500 km desse tipo de rodovia naquele país. Estima-se que tal medida já evitou cerca de 1.400 mortes nas estradas de lá.

Deu até vontade de ir morar na Suécia né?

Pensando bem, se fosse assim, quantos não se mudariam para o Butão?

Para quem não sabe, o Butão fica na Ásia central e é considerado o país no mundo com maior índice de felicidade. Vai entender né…

Isso me faz lembrar de quando eu esperava para atravessar a rua e a perua se jogou em meios aos carros. Me divirto com Niterói. Prefiro morar em Niterói mesmo!

No melhor – ou pior dos casos – ainda somos penta e sobrevivemos aos 7 x 1. E vou repetir palavras da minha santa avó: “O que não mata engorda!”

Fui porque a comida tá na mesa! Até semana que vem!

Je Suis Tupinambá!

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Milagrosamente, o livro chegou antes do esperado! O Povo Brasileiro é um livro bastante interessante ao se tratar da maneira como o papel do índio é importante para entendermos mais nossa tão conturbada civilização. O livro de Darcy Ribeiro me inspirou a escrever o post dessa semana, e devo explicar o porquê: Descobri um primo que eu nem sabia que tinha.

Essa primeira semana do ano foi um tanto quanto surpreendente. O livro encomendado pela internet no final de semana foi rapidamente entregue na livraria. Antes mesmo do dia 6, o livro já estava me esperando na livraria no centro de Niterói. E eu livro apaixonante! O Povo Brasileiro, do antropólogo Darcy Ribeiro, já figura entre as leituras mais originais e animadoras – este último adjetivo dependendo apenas do ponto de vista de quem o lê – que eu li na minha jornada de 23 anos.

A maneira como é tratada no livro a relação dos índios à moldagem do que entendemos como “povo brasileiro” é simplesmente única – principalmente quando nos lembramos que os índios são riscados do mapa até mesmo hoje pelos livros escolares e qualquer outro meio que deveria nos educar sobre a história da formação social brasileira. Li o livro como uma criança sedenta por conhecimento. Não é novidade, para aqueles que me conhecem de perto, sobre minha relação com a antropologia e com a cidade de Niterói, minha cidade natal, e sobre a qual Darcy Ribeiro cita vez e outra nas 100 primeiras páginas de O Povo Brasileiro.

No livro, Ribeiro cita a ocupação francesa na cidade de Niterói. Tal ocupação se deu na tentativa de instalação de uma colônia calvinista chamada França Antártica, que tinha o apoio maciço dos índios Tupinambás. Os Tupinambás, sempre numerosos e conhecidos por sua vocação para a guerra, serviam aos franceses em troca de espelhos, pentes, instrumentos que facilitassem seu cotidiano, entre outras coisas. Os franceses viam nos Tupinambás ventres e braços armados, os primeiros para poderem gerar mestiços que trabalhassem na lavoura como mão-de-obra, os outros como uma maneira de sempre estarem protegidos contra outras tribos, de maneira que seu território estivesse sempre seguro.

Uma curiosidade que me chamou bastante atenção foi a maneira como boa parte dos índios e suas tribos estabeleciam relações de parentesco entre si, e como suas relações de parentesco foram absorvidas e utilizadas como principal instrumento de colonização no Brasil. Todo membro que não pertencesse à tribo era recebido e logo recebia uma índia como esposa e tão logo já era absorvido. Cada índio mais velho eram como seus pais, avós, tios e sogras. Os que teriam uma margem de idade próxima eram todos seus irmãos, cunhados e primos – sendo que o contato sexual só não ocorria entre aqueles considerados como irmãos. Cunhados tinham relações sexuais entre si, o que levava à uma nova relação familiar: todas as crianças nascidas eram filhos de todos os outros membros da tribo. Tal prática ganhou o nome de cunhadismo, e foi uma das principais formas de crescimento populacional daquele primeiro período colonial brasileiro. A prática do cunhadismo era uma prática também comum aos Tupinambás que geraram mestiços e garantiram o sucesso da ocupação protestante em terras niteroienses até cerca de 1567, ano em que os franceses e os Tupinambás foram expulsos por portugueses e índios Temiminós, pondo fim à guerra que durou 12 anos.

Vale lembrar que o líder dos Temiminós, Arariboia, hoje é o patrono da cidade de Niterói – Niterói quer dizer “águas escondidas”, em tupi. Gostei mesmo da leitura do livro. Foi tão esclarecedor sobre a formação do povo brasileiro quanto à formação da minha própria cidade.

Após a leitura do livro, fui me distrair um pouco no facebook e acabei por chegar à descoberta mais louca da semana. Mais do que descobrir sobre relações de parentesco indígenas, descobri uma relação de parentesco minha! Vi no facebook que um amigão meu tinha como amigo em comum o meu padrinho, que é também meu tio, irmão do meu pai. Perguntei rapidamente ao meu amigo, via whatsapp, de onde ele conhecia meu tio. Vinícius, meu amigo, respondeu que meu tio era primo do tio dele. Logo acabamos por descobrir que nossas avós maternas eram irmãs! Descobri que o meu grande amigo gaúcho era meu primo de 2° grau. Juro que me senti um mestiço filho do cunhadismo indígena dos Tupinambás de Niterói! Haha

Que semana louca! Quase desanimei de fazer um desenho para o post dessa semana depois do atentado à revista esquerdista Charlie H. Enfim, uma forte gripe se aproxima e minha avó está dando uma de pajé e está me curando com laranjas e canja de galinha. Espero estar melhor até o próximo post! Até a próxima, pessoal!

La Cérémonie d’adieu

Desenho post

2015 chegou.

Mudou o ano e vejo pessoas comovidas dando adeus ao ano que passou. Pessoas comovidas mesmo! Chorando e se abraçando – desconsiderando o teor alcoólico presente nas comemorações. Foi tanto “adeus ano velho, feliz ano novo!” que ouvi ontem que fui praticamente obrigado a dedicar este post inteiro à cerimônia do adeus.

Andei pela manhã com o sentimento de que nada havia mudado. Ainda lembrava dos rostos etílicos que choravam o fim de 2014. Me lembrei de procurar a etimologia da palavra “adeus” e corri para o “pai google”, e após uma rápida consulta, encontrei:

“’adeus’ é exatamente o mesmo que ‘A Deus’; é o encurtamento da frase ‘A Deus vos recomendo’, tal como às vezes se diz ‘até’, no lugar de ‘até logo’.”

Sempre achei legal a importância das tradições. Desde pequeno, passo meus réveillons na praia de Icaraí. Quando eu era pequeno, a comemoração era bem mais ‘família’ e já indicava a presença das pessoas hiper comovidas com a despedida ao ano anterior. Atualmente, os réveillons tem sido muito mais frequentados por jovens, e ainda assim, a comoção é par àquilo que eu já via quando criança.

Pessoas que passam o ano todo sem demonstrações religiosas se atiram às superstições. Roupas brancas, cuecas e calcinhas das mais cariadas cores, barquinhos para Iemanjá, sete ondas puladas, sete caroços de romã na carteira…

E foi buscando algo que justificasse tal comoção coletiva, que fiz outra pesquisa e encontrei o seguinte, quando procurei a origem das festividades de ano novo:

“A comemoração ocidental tem origem num decreto do imperador romano Júlio César, que fixou o 1° de Janeiro como o Dia do Ano-Novo em 46 a.C. Os romanos dedicavam esse dia a Jano, o deus dos portões. O mês de Janeiro deriva do nome de Jano, que tinha duas faces (bifronte) – uma voltada para frente (visualizando o futuro) e a outra para trás (visualizando o passado). “

E a partir daí a coisa deslanchou! Fui atrás desse tal de Jano, e descobri que o cara era legal mesmo:

“Jano (em latim Janus) foi um deus romano das mudanças e tradições. A figura de Jano é associada a portas (entrada e saída), bem como a transições. A sua face dupla também simboliza o passado e o futuro. Jano é o deus dos inícios, das decisões e escolhas. O maior monumento em sua glória se encontra em Roma e é tem o nome de Ianus Geminus (gêmeos Jano).”

Cheguei num ponto importante para o post de hoje. A virada do ano tem como tradição as decisões e escolhas novas a serem feitas. Foi hoje que percebi que são sim – e muito – necessárias as festividades e comemorações em torno do 1° dia do ano. Demorou mas compreendi! J

Agora que eu já podia entender o porquê de muitos ficarem emocionados sem nem saber o próprio porquê, eu me lembrei de quando eu tinha oito anos. Foi num réveillon que minha avó me incentivou a pular ondas, junto com minha mãe e minha tia. Minha avó é católica – tão católica que ouve o programa de rádio do Padre Marcelo todos os dias – e representa tudo aquilo que penso como sincretismo religioso que é o réveillon. E por falar na minha vó, foi ela que me ensinou o famoso “adeus ano velho, feliz ano novo”.

Junto com a mudança de casa, veio o adeus a 2014 e velho endereço. Agora podemos espremer a família toda no canto da varanda – prometo fazer um post totalmente voltado à varandas – para observar a queima de fogos e toda essa cerimônia do adeus.

Minha avó só está se acostumando agora com a nova casa, mas ficou feliz de poder ver um pouco da queima de fogos, embora esteja chateada por perder pelo segundo dia seguido o programa do Padre Marcelo no rádio.

Para mais ou para menos, fico com a frase do grande e inesquecível Millôr Fernandes:

“Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus”

Obs.: Coincidentemente, estou lendo o livro A Cerimônia do Adeus, da Simone de Beauvoir. No livro, Simone fala sobre os últimos dez anos de vida Sartre, seu marido e companheiro de toda uma vida. Tendo em vista que foi um dos casais de intelectuais mais bem sucedidos que eu conheço, tomei a liberdade para dar o nome do livro para este post.