Segundo andar

Foram tão felizes que não tiraram fotos. Passaram a noite no velho bar mexicano de tantas outras noites, compartilhando da alegria de poder beber numa quarta-feira. Sentaram-se desta vez na sacada do segundo andar para poder olhar de cima todas aquelas pobres almas sofridas de amor, o que os fazia pensar nos anos que se passaram. Estes, por sua vez, faziam pensar nos anos que virão a passar.

Na mesa do canto esquerdo, um homem exaltado gesticulava e falava com tanta energia que sua companheira se encolheu sem ter como reagir. Outros pareciam não ver. Haviam pedido batatas e cerveja, o que provocava a constatação de que enquanto brigavam o que era quente esfriava e o que estava gelado esquentava. Num virar de olhos, não estavam mais lá. Não voltamos a vê-los mais. Como teria acabado aquela noite para aqueles pobres amantes da mesa do canto? Que fim teriam tido aqueles rostos?

Uma pequena confraternização entre um grupo de jovens senhosas dava a rara impressão de que as pessoas ao redor eram ainda mais tristes: homens sós, casais em silêncio, mesas vazias e TVs mudas. Até mesmo os garçons que de preto alimentavam o luto etílico destilavam olhares sobre o menino que brincava em cima da mesa para disfarçar sua apreensão diante do novo namorado de sua jovem mãe. A brincadeira era um mundo à parte com peças triangulares vermelhas, que criava uma outra realidade sobre a mesa.

Do segundo andar, estranhavam de onde vinha tanta gente só. Encaravam a injusta e doce realidade de serem náufragos que se abraçam para juntos não perecerem ao afundamento. Dali boiavam a ver os outros como uma realidade distante e presente: sem dúvida eram felizes. 

Do bar saíram com os braços dados. Passos cambaleantes que se entrecruzaram até a casa na rua principal. Aos beijos na porta, tocaram a campainha. Foram tão felizes que não tiraram fotos.