Jaú e as Ondas

Ela foi até o espelho e se encarou por longos 3 minutos. Os olhos semiabertos contemplando o efeito dos anos sobre aquele rosto que outrora foi um dos mais belos de São Francisco. Os cabelos agora brancos não deixam esconder mais o efeito indelével dos anos. O tempo escorre entre seus dedos como no tempo em que corria pela praia vazia enquanto seu pai puxava de volta o barco que a maré havia carregado para longe durante a noite. Como sempre, o velho pescador havia bebido demais e esquecera de amarrar o barco naquelas pedras que até hoje sobrevivem às ondas.

Ela tinha 8 anos quando Jaú morreu, naquele verão de 1937. Caminhava ao seu lado e fazia o Sol parecer menos déspota ao poder dividir com ela aquele calor que mais parecia um castigo. Jaú correu para a água e olhou para trás como quem dizia: Vem, Olívia! Entrou na água e cantarolava alguma música cômica que ouvira no rádio na noite anterior. A onda batia forte e ficou com medo por ele: Jaú era forte mas não sabia nadar.

Embora fossem filhos de pescadores, não sabiam nadar. A onda bateu forte novamente e Jaú perdeu o equilíbrio. Caiu para a frente e reapareceu 4 horas depois a uma distância de 2 km da praia de São Francisco. Correram para recolher o corpo e, para surpresa, o verão de 1937 ficou para sempre impresso na felicidade de Jaú: morreu sorrindo e com os olhos perdidos olhando para frente. 

O horizonte.

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