As Férias de Lorival

Desceu a rua às carreiras em cima de uma velha bicicleta como se fugisse da morte ou corresse atrás do bonde. A testa calva já molhada de suor brilhava ao Sol das 15h. A camisa social umedecida e desabotoada sacudiam ao vento e Lorival se lembrou de quando era garoto no interior. Não havia a pressa.

Hoje, aos 78 anos, era obrigado a trabalhar como porteiro em um dos novos condomínios do bairro novo. Passara a vida trabalhando para ajudar os pais, depois para ajudar a sustentar, juntamente da mulher, os 4 filhos e 1 neta. Hoje trabalha para sustentar a si mesmo: seus remédios e seus vícios. 

Dos 14 aos 78 trabalhou sem férias. Sempre que entrava de férias em um emprego era obrigado a arranjar um outro emprego para completar a renda e dar de comer às crianças. De tudo fazia um pouco e aos 60 já tinha o sobrepeso de 20kgs e aparência nada saudável de um senhor de 80 anos.

A morte da mulher anos atrás obrigou Lorival a aceitar o trabalho de porteiro, já que a renda como lavadeira e doméstica de sua mulher não existia mais para sacrar os seus vícios e alimentar as bocas do lar. Embora também tivesse as mãos delicadas de sua companheira, não as usava para costurar para fora, mas para o carteado. Gastava noites infindas nos bares e endividava-se ao tentar acabar com suas dívidas em apostas mirabolantes que quase sempre perdia, o que retro-alimentava sua vontade insaciável para afogar seus desesperos em copos sem fim e comilanças suicidas.

Encarregado de levar sua neta para a escola todos os dias na hora do almoço para que ainda pudesse salvar o futuro de sua estirpe, preocupou-se ao descobrir que seria necessário conversar com a professora da pobre criança, pois a menina tinha dificuldades de concentração e passava as aulas dispersa e ao mesmo tempo imersa em seus desenhos. 

O susto de mais um possibilíssimo insucesso de sua estirpe somado ao passar rápido dos ponteiros do relógio alertou-o de que precisaria sair às pressas e mal teve tempo de comer seu prato de almoço. Comeu o prato em 2 minutos e subiu em cima de sua bicicleta com a determinação de quem tem corre atrás de um pobre e valioso salário. Em 14 minutos já estava descendo as ladeiras rumo ao bairro novo. Enfim, por volta das 15h, quando sua testa banhada em suor escorria sobre seus olhos, um ônibus atravessou o cruzamento para dar-lhe férias. 

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Jaú e as Ondas

Ela foi até o espelho e se encarou por longos 3 minutos. Os olhos semiabertos contemplando o efeito dos anos sobre aquele rosto que outrora foi um dos mais belos de São Francisco. Os cabelos agora brancos não deixam esconder mais o efeito indelével dos anos. O tempo escorre entre seus dedos como no tempo em que corria pela praia vazia enquanto seu pai puxava de volta o barco que a maré havia carregado para longe durante a noite. Como sempre, o velho pescador havia bebido demais e esquecera de amarrar o barco naquelas pedras que até hoje sobrevivem às ondas.

Ela tinha 8 anos quando Jaú morreu, naquele verão de 1937. Caminhava ao seu lado e fazia o Sol parecer menos déspota ao poder dividir com ela aquele calor que mais parecia um castigo. Jaú correu para a água e olhou para trás como quem dizia: Vem, Olívia! Entrou na água e cantarolava alguma música cômica que ouvira no rádio na noite anterior. A onda batia forte e ficou com medo por ele: Jaú era forte mas não sabia nadar.

Embora fossem filhos de pescadores, não sabiam nadar. A onda bateu forte novamente e Jaú perdeu o equilíbrio. Caiu para a frente e reapareceu 4 horas depois a uma distância de 2 km da praia de São Francisco. Correram para recolher o corpo e, para surpresa, o verão de 1937 ficou para sempre impresso na felicidade de Jaú: morreu sorrindo e com os olhos perdidos olhando para frente. 

O horizonte.