Missa Para Genet

2015-04-25 00.41.13 (1)

Depois de dois meses sem postar nada aqui no blog, fui quase intimado a voltar a postar devido ao grande número de desenhos que tenho produzido. E por produzir tanto, minha namorada (Victória) e minha grande amiga e colega de academia (Mayra), me motivaram a voltar para a escrita. É a elas a quem dedico minha volta. Lá vai!

Para o post dessa semana, escolhi sentar dentro de uma Igreja Católica (Porciúncula de Sant’ana). Neste momento em que vos escrevo, está acontecendo uma missa. Você que me lê deve se perguntar agora: Por que escolheu uma Igreja?

Desde pequeno, fui criado em uma família “dita” católica. Avós católicos, mãe espírita-umbandista, primo evangélico radical, tia messiânica, outra tia espírita-cardecista-qualquer-coisa-que-salve-do-inferno. E eu? A ovelha negra… O sem religião.

E vou confessar. É difícil não ser algo. Estudei o final do ensino fundamental e todo ensino médio em escola católica e fingia, todo ano, escolher uma nova religião diferente para poder “ser aceito” no meio. Os profs de religião colocavam uma pressão absurda e eu sempre dizia que era budista, hindu – sim, absurda a minha cara-de-pau, né? – judeu ortodoxo – hã? – ,católico ortodoxo russo – ok, passei dos limites… Desconfio de que eles sabiam que eu não estava mentindo desde o início, mas parece que havia a cumplicidade da tentativa de escolher algo para preencher essa necessidade moral de ter uma religião. Era entendido que eu precisava ser classificado.

Voltando um pouco no tempo. Lembro ainda na 5° série. Eu estava começando a ler muito, enquanto os outros meninos só queriam saber de futebol. Eu lia na época o livro O Inimigo de Deus – segundo livro da trilogia Rei Arthur – e a prof de religião ficou sabendo que eu andava lendo… Mas ela soube apenas do nome do livro (haha). E quando tentei explicar, falei do primeiro livro da trilogia , O Rei do Inverno. E não é que ela entendeu que o “v” fosse um “f”!? (hahahahahahaha) Fui imediatamente para a coordenação pedagógica da escola. Era difícil ser criança nesse meio religioso… Ainda mais entre tantas religiões de sofrimento. Lembro que quando eu tinha uns 4 anos e fui com meus pais na procissão/encenação da Missa da Ressurreição de Cristo. No meio da Igreja, vinha um homem todo ensanguentado dizendo sobre carne e sangue. Trauma na hora! Chorei pra caramba!

*Aqui na Igreja, estão me olhando pois sou disparadamente o mais jovem. Rezei até um Pai Nosso aqui para provar que estou aqui de boa.

**Uma senhora acabou de apertar minha mão dizendo “Paz de Cristo”, tomei um susto, tamanha a minha concentração!

Dando um breve salto no tempo. Depois de entrar para a graduação em Ciências Sociais, me aprofundei por conta própria no existencialismo de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Jean Genet… Foi então que saí da “caixinha” religiosa de vez. Minha mãe até hoje ainda me prepara banhos de “limpeza” espiritual. Eu tomo, né… Vai que funciona! (rs) E também escuto diariamente o programa do Padre Marcelo Rossi com minha avó no rádio que meu primo evangélico empresta para ela ouvir.

Outro dia mesmo, levei minha vó para passear um pouco e fomos à Igreja (esta mesma que eu escrevo agora). Ela pegou uns papéis com pedidos de missa para encomendar a alma dos parentes falecidos todos que tiveram na família. Acabou por me dar um papel. Não soube o que escrever. Aí veio aquele estalo! Vou mandar rezar uma missa para Sartre e Simone, afinal, os considero meus padrinhos intelectuais e da vida mesmo. Mandei rezar, mesmo sendo ateus… Que Sartre me perdoe!

Hoje, para não ficar muito atrás ou em dívida, mandei rezar uma missa para Jean Genet. Ainda mais depois de começar a ler “Diário de um Ladrão”, percebi que se alguém precisava de uma missa, esse alguém era “tio Genet”! (rs)

Até a próxima!

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