Je Suis Tupinambá!

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Milagrosamente, o livro chegou antes do esperado! O Povo Brasileiro é um livro bastante interessante ao se tratar da maneira como o papel do índio é importante para entendermos mais nossa tão conturbada civilização. O livro de Darcy Ribeiro me inspirou a escrever o post dessa semana, e devo explicar o porquê: Descobri um primo que eu nem sabia que tinha.

Essa primeira semana do ano foi um tanto quanto surpreendente. O livro encomendado pela internet no final de semana foi rapidamente entregue na livraria. Antes mesmo do dia 6, o livro já estava me esperando na livraria no centro de Niterói. E eu livro apaixonante! O Povo Brasileiro, do antropólogo Darcy Ribeiro, já figura entre as leituras mais originais e animadoras – este último adjetivo dependendo apenas do ponto de vista de quem o lê – que eu li na minha jornada de 23 anos.

A maneira como é tratada no livro a relação dos índios à moldagem do que entendemos como “povo brasileiro” é simplesmente única – principalmente quando nos lembramos que os índios são riscados do mapa até mesmo hoje pelos livros escolares e qualquer outro meio que deveria nos educar sobre a história da formação social brasileira. Li o livro como uma criança sedenta por conhecimento. Não é novidade, para aqueles que me conhecem de perto, sobre minha relação com a antropologia e com a cidade de Niterói, minha cidade natal, e sobre a qual Darcy Ribeiro cita vez e outra nas 100 primeiras páginas de O Povo Brasileiro.

No livro, Ribeiro cita a ocupação francesa na cidade de Niterói. Tal ocupação se deu na tentativa de instalação de uma colônia calvinista chamada França Antártica, que tinha o apoio maciço dos índios Tupinambás. Os Tupinambás, sempre numerosos e conhecidos por sua vocação para a guerra, serviam aos franceses em troca de espelhos, pentes, instrumentos que facilitassem seu cotidiano, entre outras coisas. Os franceses viam nos Tupinambás ventres e braços armados, os primeiros para poderem gerar mestiços que trabalhassem na lavoura como mão-de-obra, os outros como uma maneira de sempre estarem protegidos contra outras tribos, de maneira que seu território estivesse sempre seguro.

Uma curiosidade que me chamou bastante atenção foi a maneira como boa parte dos índios e suas tribos estabeleciam relações de parentesco entre si, e como suas relações de parentesco foram absorvidas e utilizadas como principal instrumento de colonização no Brasil. Todo membro que não pertencesse à tribo era recebido e logo recebia uma índia como esposa e tão logo já era absorvido. Cada índio mais velho eram como seus pais, avós, tios e sogras. Os que teriam uma margem de idade próxima eram todos seus irmãos, cunhados e primos – sendo que o contato sexual só não ocorria entre aqueles considerados como irmãos. Cunhados tinham relações sexuais entre si, o que levava à uma nova relação familiar: todas as crianças nascidas eram filhos de todos os outros membros da tribo. Tal prática ganhou o nome de cunhadismo, e foi uma das principais formas de crescimento populacional daquele primeiro período colonial brasileiro. A prática do cunhadismo era uma prática também comum aos Tupinambás que geraram mestiços e garantiram o sucesso da ocupação protestante em terras niteroienses até cerca de 1567, ano em que os franceses e os Tupinambás foram expulsos por portugueses e índios Temiminós, pondo fim à guerra que durou 12 anos.

Vale lembrar que o líder dos Temiminós, Arariboia, hoje é o patrono da cidade de Niterói – Niterói quer dizer “águas escondidas”, em tupi. Gostei mesmo da leitura do livro. Foi tão esclarecedor sobre a formação do povo brasileiro quanto à formação da minha própria cidade.

Após a leitura do livro, fui me distrair um pouco no facebook e acabei por chegar à descoberta mais louca da semana. Mais do que descobrir sobre relações de parentesco indígenas, descobri uma relação de parentesco minha! Vi no facebook que um amigão meu tinha como amigo em comum o meu padrinho, que é também meu tio, irmão do meu pai. Perguntei rapidamente ao meu amigo, via whatsapp, de onde ele conhecia meu tio. Vinícius, meu amigo, respondeu que meu tio era primo do tio dele. Logo acabamos por descobrir que nossas avós maternas eram irmãs! Descobri que o meu grande amigo gaúcho era meu primo de 2° grau. Juro que me senti um mestiço filho do cunhadismo indígena dos Tupinambás de Niterói! Haha

Que semana louca! Quase desanimei de fazer um desenho para o post dessa semana depois do atentado à revista esquerdista Charlie H. Enfim, uma forte gripe se aproxima e minha avó está dando uma de pajé e está me curando com laranjas e canja de galinha. Espero estar melhor até o próximo post! Até a próxima, pessoal!

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